Os livros LGBT que estão mudando o mercado

Você já deve ter visto eles em alguma livraria ou liderando os rankings de mais vendidos

Os livros LGBT que estão mudando o mercado

por Thaís Herculano


Nos últimos meses, alguns livros com protagonismo LGBTQIAP+ vem se destacando nas listas de mais vendidos do Brasil. Um exemplo é Os sete maridos de Evelyn Hugo, da norte-americana Taylor Jenkins Reid, que já apareceu por 57 semanas não consecutivas na lista da Veja. Outra obra que tem batido ponto na lista da revista é Vermelho, branco e sangue azul, de Casey McQuiston, que já está por lá há 60 semanas não consecutivas.


Quando olhamos para as publicações nacionais, é possível destacar Conectadas, de Clara Alves, que recentemente alcançou a marca de 100 mil cópias vendidas e chegou a ocupar o primeiro lugar da lista Nielsen-PublishNews. Mais destaques nacionais na mesma lista são Enquanto eu não te encontro, de Pedro Rhuas, Luzes do Norte, de Giulianna Domingues, O amor não é óbvio, de Elayne Baeta, entre outros.



Muitos são os fatores que levaram essas obras ao topo, entre eles o trabalho criativo dos autores na hora de apresentar o livro para o público. Para Enquanto eu não te encontro, Pedro Rhuas, que também é cantor, lançou até álbum com a trilha sonora da história. Além disso, uma das estratégias adotadas foi apostar no TikTok. De acordo com Rhuas, tudo isso se soma ao fato de o livro proporcionar aos leitores uma identificação.


“Para além de acolher diversos leitores que nunca se viram representados em uma literatura comercial mainstream, a parceria com criadores de conteúdo queers contribuiu para que o livro chegasse a toda uma geração de novos leitores. Minha constante interação com essa audiência, por meio das minhas redes, transformou o universo da história em um espaço em que leitores se sentem, também, protagonistas dessa jornada.”


O mercado editorial passou por uma transformação, se antes as obras com representatividade eram raras, hoje é possível contar com certa variedade. Para Pedro Rhuas, essa transformação é fruto da luta de minorias e o cenário que se tem atualmente só é possível graças às obras publicadas anteriormente.


“Enquanto eu não te encontro não existe sozinho, mas, pelo contrário, em conjunto a toda uma trajetória de escritores LGBTQIAP+ do Brasil e do mundo, há anos disputando por visibilidade. Esta história não estaria onde está sem todas as que vieram antes”, lembrou.


Caminhos que levam ao topo



Querido ex, de Juan Jullian, recentemente chegou à 5ª edição, isso sem contar todo o caminho do livro antes de chegar até a Galera Record, como os mais de 100 dias no topo da Amazon. O caminho trilhado pelo autor também é de muito trabalho de divulgação, que é potencializado pelo cenário atual.


“A gente tem um cenário cada vez mais rico de autores nacionais escrevendo histórias com protagonismo LGBTQIAP+, tanto no independente quanto em casas tradicionais, e o sucesso deles impacta diretamente no interesse pelo meu livro. É comum que leitores de autores como Clara Alves, Vinicius Grossos e Maria Freitas busquem o Querido ex e vice-versa. Esse interesse nas nossas histórias é ascendente e acredito que cada lançamento e novo autor tem o potencial de criar novos leitores, o que é positivo para todos nós”.


Para o escritor, a trajetória de Querido ex mostra que, para durar no imaginário dos leitores, é preciso que essas histórias sejam diversas e que escritores saibam com quem estão falando. “É só mais um dos muitos exemplos que a gente encontra da potência de vozes plurais e do interesse do público nas nossas histórias, independente de convenções sobre o que seria ou não seria comercialmente interessante. Querido Ex ignora vários pontos do checklist do YA contemporâneo e, ainda assim, encontrou seu público”, afirmou.


Com histórias cada vez mais plurais, os livros com representatividade LGBTQIAP+ ganharam as livrarias e as redes sociais. Leitores orgulhosos postam fotos onde seus livros preferidos aparecem nas estantes de mais vendidos das livrarias. Autores celebram os espaços conquistados depois de muito trabalho.


O livro de estreia de Giu Domingues, a fantasia sáfica Luzes do Norte, é uma das obras que conquistaram espaço nos últimos tempos. Depois do sucesso no independente, o livro chegou ao mercado tradicional e continuou ganhando público. O processo de divulgação do livro foi compartilhado e se tornou uma referência. A autora acredita que, além de todo esse trabalho, se obras assim chegam às grandes editoras, é graças à busca dos leitores por histórias que tratam a diversidade com naturalidade.


“Acho que o mercado percebeu que o público LGBTQIA+ hoje quer se ver em todo o tipo de histórias, onde a identidade seja pano de fundo e não assunto principal. A gente procura uma naturalidade de personagens queer nas tramas que consumimos, embora ainda haja uma necessidade muito grande de continuar falando sobre a descoberta de si e da própria identidade. Ao mesmo tempo, reconhecemos que pessoas LGBTQIA+ podem fazer tudo: empunhar espadas, caçar monstros, serem piratas... Sinto que o público quer histórias em que ser LGBTQIA+ é mais um detalhe da personagem, e o mercado tende a refletir isso”.


Destaques no indie



O mercado independente também tem se mostrado bastante receptivo às obras LGBTQIAP+ e com mais variedade de letras da sigla. Quando se fala em autoria e protagonismo lésbico, por exemplo, há muito mais nomes de destaque entre as escritoras indie. O casal Bruna e Gisele Baldassari é um exemplo. Autoras de Diário de bordo de uma impostora, A princesa, o cappuccino e a profecia de Apolo e Uma pitada de sorte, elas acreditam que as coisas ainda podem mudar, pois o mercado tradicional tem um tempo de reação mais lento.


“O que acontece hoje nas mídias digitais deve refletir daqui a 1 ou 2 anos no mercado do livro. A gente percebe que existe interesse em atender às demandas por obras LGBTQIAP+ e também outras minorias. Mas essa demanda começou a ser atendida com livros estrangeiros primeiro. Acreditamos que essa é uma indústria como qualquer outra, que precisa vender para se manter. Então, acho que é natural as editoras apostarem primeiro nos livros traduzidos por serem histórias que já foram bem aceitas.”


Além disso, elas observam que a contratação de nomes que se destacaram no independente deixa o cenário ainda mais favorável. “Nós, que somos um pouco mais velhas, simplesmente não tivemos livro nenhum que nos representasse, pelo menos não best sellers e livros comerciais, então, estamos otimistas com tudo que vem acontecendo, com o que já conquistamos até aqui, e principalmente com relação ao futuro!”


E quando se fala em autores indie, também é possível observar alguns fenômenos que se destacam pelo número de leitores. A série de suspense Garotos Mortos, de Mark Miller, soma milhares de avaliações e o primeiro volume se mantém no topo da categoria há mais de 250 dias. Para o autor, a publicação indie e a tradicional têm pontos que devem ser considerados.


“A publicação independente me garante uma liberdade criativa e financeira que tenho (quase) certeza que não encontraria na publicação tradicional. A publicação tradicional permite uma segurança e leque de oportunidades ainda de difícil acesso na publicação independente. Se estivéssemos falando de um ponto puramente financeiro, então acredito que a publicação independente seja mais do que o suficiente para mim. Não diria que a publicação tradicional é o meu sonho. Diria que é um passo que, na minha carreira, espero chegar naturalmente e no tempo certo. E caso não aconteça, já estou feliz com tudo o que conquistei até aqui”, pontuou.


A busca do leitores ajuda a explicar a mudança no mercado


Quem investe na divulgação de livros na internet também percebe algumas tendências, principalmente em relação ao que os leitores estão procurando nas obras. Para Iris Teles, criadora do Divulga Nacional, as obras que trazem conforto são as preferidas.


“Acredito que meus seguidores procuram histórias que eles possam sentir que estão sendo vistos. Histórias onde o foco principal não seja pessoas sofrendo por ser quem são, e sim que deixem o coração quentinho.”


Não existe uma fórmula mágica para o sucesso de um livro com protagonismo LGBTQIAP+, mas muitos fatores podem impulsionar as vendas. Nesse mês do orgulho, é importante celebrar os avanços do mercado literário e lembrar que ainda há um longo caminho a percorrer.