Por que um beijo incomoda tanto?

Escritores falam sobre a importância e os desafios de estampar beijos queer em capas de livros

Por que um beijo incomoda tanto?

por Thaís Herculano


Na ficção, quando se fala em romance, o beijo é um símbolo do amor entre os personagens. Cenas icônicas, como quando Mary Jane e o Homem Aranha se beijam na chuva, ou quando Jack e Rose se beijam na proa do Titanic, viraram referência, mas elas mostram casais heteronormativos. Quando o assunto é o beijo entre pessoas da comunidade LGBTQIAP+, o que era para ser um símbolo de afeto, acaba incomodando uma parcela mais conservadora da população.


Beijos entre pessoas LGBTQIAP+ nem chegam com tanta frequência assim às grandes produções do cinema. Na Bienal do Livro de 2019, bastou uma cena de beijo entre dois rapazes na HQ Vingadores: A Cruzada das Crianças para que Marcelo Crivela, prefeito na época, tentasse censurar as obras LGBTQIAP+ no evento.


Na ocasião, autores, leitores e profissionais do livro, se uniram em um protesto contra a censura. Livros com representatividade LGBTQIAP+ ficaram em evidência e a tentativa de censura por parte do prefeito conservador acabou sendo mal sucedida. O que não significa que os conservadores tenham desistido de atacar a comunidade.


Felipe Cabral, autor de O primeiro beijo de Romeu, também foi o curador de uma mesa com diversos autores LGBTs na Bienal de 2019. Ele lembra do sentimento de medo que tomou conta dos participantes. “Ninguém tinha vivido algo parecido dentro da maior feira literária do país. Para nós, que somos LGBTQIA+ e que trabalhamos com literatura, o susto foi gigante porque a censura era direcionada para nossas histórias e, consequentemente, para nossas vidas.”


O episódio acabou provocando em Felipe reflexões sobre como os mais jovens poderiam ser afetados por esse discurso conservador, e foi assim que surgiu a ideia para a criação de O primeiro beijo de Romeu.


“Se quem está dentro do armário já sofre com o medo de ser aceito pela família, de sofrer bullying na escola, de sofrer agressões na rua... tudo deve ficar mais angustiante ainda se o seu Prefeito ou Governador ou Presidente for LGBTfóbico. Foi assim que surgiu a história do Romeu, um adolescente de 15 anos que é arrancado do armário na escola, prestes a dar o seu primeiro beijo, e que enfrenta a censura que o livro de um de seus pais sofreu por conta da ilustração de um beijo gay. Ficcionalizar aqueles acontecimentos foi um jeito de nunca esquecermos que aquele horror aconteceu e que nós conseguimos resistir.”



O papel das editoras



A capa de O primeiro beijo de Romeu, ilustrada por Johnatan Marques, mostra dois rapazes se beijando. Rafaella Machado, editora executiva da Galera Record, responsável pela publicação, conta que, desde a contratação, ela e Felipe Cabral queriam que a capa mostrasse um beijo. Nunca antes, um livro jovem, nacional e publicado por uma grande editora havia feito uma capa assim. “Tanto pelo título, como pela importância da trama, a gente sabia que seria o beijo entre os dois rapazes. Não foi difícil chegar a essa conclusão. Nunca antes houve um beijo gay num livro jovem e estávamos prontos para que o Romeu fosse esse primeiro livro.”


Rafaella lembra ainda que uma das grandes dificuldades quando se fala em obras LGBTQIAP+ é o fato de muitos leitores não conseguirem acessar essas histórias, por isso, a tomada de decisão da editora precisa levar em consideração muitos fatores.


"Muitas vezes, os nossos leitores estão ávidos por essas histórias, mas os pais não aprovam. Quando a gente vai lançar um livro, os leitores pedem para que a capa não seja obviamente LGBTQIAP+, para ser feita de uma maneira discreta. E a gente avalia caso a caso. Ao mesmo tempo, a gente acha que, enquanto não for normalizado, a sociedade nunca vai mudar. Então o simples fato de Romeu existir nas livrarias seria um recado muito claro pra sociedade de que não existe vergonha nenhuma nesse tipo de afeto e que livros assim vão continuar existindo.”


Uma das ações da editora para promover O primeiro beijo de Romeu é um mural imenso colocado em grandes eventos literários. Na Bienal Mineira do livro, que aconteceu em maio, o painel estava lá, servido de cenário para fotos de membros orgulhosos da comunidade LGBTQIAP+. Mas, nas redes sociais, foi vítima de ataques homofóbicos. Para Felipe, a atitude já era esperada e mostra como a sociedade ainda precisa evoluir.


“Eu confesso que, pessoalmente, não deposito muita energia rebatendo essa gente preconceituosa que gasta seu tempo de vida destilando ódio contra a nossa comunidade. A ideia de colocar um beijo gay na capa do livro foi mostrar que se um beijo aquileano havia sido censurado dentro de uma HQ em 2019, nós iríamos estampar outro beijo na capa de um livro e espalhá-lo pelo Brasil.”


Sobre a repercussão positiva do mural, Felipe celebra não só as muitas fotografias de pessoas com a capa de seu livro ao fundo, mas também o contato com esses leitores durante sua passagem pelo evento. “É emocionante ver adolescentes e famílias tirando fotos na frente do mural, pedindo autógrafos, agradecendo por lhes inspirar, por lhes dar esperança. Eu espero que nossa comunidade se depare com aquele beijo pelas livrarias e se sinta representada. E que venham mais murais com beijos e abraços e celebrações e vitórias e conquistas para nossas histórias. Para quem se incomoda, o choro é livre.”


Os beijos estampados na literatura independente



Se por um lado o livro de Felipe Cabral na Galera Record traz uma obra nacional, jovem e com um beijo entre garotos estampado nas livrarias, por outro, o mercado independente já mostra vários outros exemplos de capas com demonstrações de afeto entre as pessoas LGBTQIAP+.


Cínthia Zagatto é autora de No alto de um rabisco. A capa do conto, disponível na Amazon e que foi lançada pelo Se Liga Editorial, mostra dois rapazes se beijando atrás de uma bandeira LGBTQIAP+. De acordo com a autora, a ideia da capa foi essa desde o início. “Fizemos uma adaptação no meio do caminho, pra ficar visualmente mais interessante para uma capa, mas desde o começo não tivemos dúvidas de que seria isso. Ainda mais porque faz parte do arco do personagem. Já a capa de Quem rabiscou aqui?, o livro que deu origem ao conto, é bastante discreta”, conta.


Cínthia avalia ainda que não percebeu nenhuma recepção negativa por parte de seus leitores. “Os leitores já vieram de um livro que sabiam ser LGBT e torciam pelo casal, então não me lembro de ter trombado com nenhum comentário desagradável. Também era um conto bem curtinho e digital, lançado por uma editora focada em representatividade, então acho que ele acertou o público que precisava e acabou não gerando reações como a capa de O primeiro beijo de Romeu, por exemplo.”


Algumas vezes, as capas que mostram beijos surgem antes mesmo da história! Esse foi o caso de Teu beijo, de Cássio Cipriano. “A ilustração é de minha autoria. Não me considero ilustrador, mas fiz na época da faculdade, quando tinha uns 19 anos. Guardei a ilustração e, em 2020, mexendo em arquivos antigos, a encontrei e pensei em escrever uma história inspirada nela. Aquele momento de afeto entre dois garotos foi a principal inspiração para a história existir, foi por onde tudo começou.”



Cássio revela que enfrentou algumas dúvidas antes de decidir pela capa de seu novo livro, Confluentes, em pré-venda pela editora Caligari. A capa não mostra um beijo, mas é um momento de afeto entre os personagens.


“A decisão de mantê-la veio principalmente porque, por ter lançado Teu Beijo antes, sabia que o meu público entenderia o conceito e fiquei muito feliz porque, desde o momento da revelação de capa, só ouvi elogios a ela por parte dos meus leitores. Enfrentei situações de LGBTfobia quando fiz anúncios em redes sociais e os algoritmos exibiram a capa para pessoas LGBTfóbicas. Felizmente, há mecanismos para suprimir esse tipo de comentário.”


O autor fala ainda sobre a importância de se ter esse tipo de afeto estampado em capas de livros. “Entendo que, no momento atual, vivendo num país extremamente conservador e preconceituoso, essa pode ser uma escolha arriscada, mas só conseguiremos evoluir nesse sentido estampando mais capas de livros, revistas, quadrinhos, outdoors ou seja lá o que for, com momentos de afeto entre pessoas LGBTQIAP+”, finalizou.


*Vale lembrar que, para quem vive em ambientes conservadores, capas com beijos, ou qualquer outro tipo de interação entre pessoas queer, não são uma opção. Por isso é importante celebrar o fato de que, seja na literatura tradicional ou na independente, existem opções de histórias com capas discretas. O mais importante é que o acesso a essas obras seja um refúgio para leitores, não importa onde estejam.