Apagamento, estereótipo e pertencimento: as primeiras obras LGBT no Brasil

Atualizado: 15 de jun.

O que a história diz sobre a literatura LGBT nacional?


Qual foi o primeiro livro escrito ou protagonizado por alguém LGBT no Brasil? Por que obras com personagens LGBT foram apagadas durante séculos? Qual o papel da representação e da representatividade dentro de um texto? Em qual momento você realmente se sente parte de uma história?


Observando o cenário literário, é possível ressaltar alguns fatores importantes que podem responder as perguntas acima. Quando se fala sobre pioneiros na literatura LGBT — que muitos estudiosos insistem em chamar de maneira errônea de literatura gay — o primeiro livro que surge em todas as listas é o “Bom Criolo” de Adolfo Caminha, publicado por várias editoras, mas com sua primeira edição pela Domingos de Magalhães. A obra lançada em 1895 deixa uma lacuna de 395 anos desde a Carta a El-Rei D. Manuel, primeiro texto histórico datado em 1500.


A pergunta que fica é: não existiu nada antes disso? Nenhum poema de amores entre homens, nenhuma carta de uma mulher para outra? Só existiam autores cis e heteros no quinhetismo, barroco, arcadismo, romantismo e realisno?


Raul Pompeia em ‘’O Ateneu’’, lá em 1888 já havia escrito sobre meninos se descobrindo, ainda que de uma forma totalmente equivocada para os dias atuais, sua obra é um retrato da sociedade da época. Muitos outros livros famosos da nossa literatura também deixam entre linhas romances entre pessoas da comunidade como ‘’O Cortiço’’, ‘’Grandes sertões veredas’’ e há até quem coloque ‘’Dom Casmurro’’ na lista, mas nossa literatura não ficou oculta somente nos romances.


Ao observar poemas dos poetas fingidores do arcadismo, podemos notar a presença de verdadeiras declarações de amor e também o sofrimento por renegar alguns sentimentos. É possível ainda citar a obra ‘’Um homem gasto” de Ferreira Leal publicado em 1885, antes mesmo de Bom Criolo, tal obra aborda a homossexualidade, mesmo que de uma forma que possa ser muito criticada atualmente.


E não há como falar de literatura LGBTQIAP+ no Brasil sem falar de Cassandra Rios, a autora lésbica, que foi a primeira autora a vender 1 milhão de livros no nosso país em plena ditadura militar. Com seus textos eróticos Cassandra irritou os militares e ganhou o coração de muitos leitores.


Também não podemos esquecer de Caio Fernando Abreu, autor que trouxe um vislumbre do que poderia ser pessoas LGBT escrevendo sobre suas próprias dores e amores, um verdadeiro marco para a literatura brasileira.


Seria presunção demais afirmar com todas as letras que essas foram as primeiras obras LGBT no nosso país, tanto pelo fator oral — histórias contadas ou cantadas —, quanto no fator escrito, já que não há registros devido ao forte apagamento. O processo até aqui foi de muita dor, seja pela invasão dos colonizadores ou por puro preconceito.


Em suma, saímos do apagamento de muitos anos, para o estereótipo com a literatura homoerotica — que não deve ser condenada, mas celebrada por também abrir portas — e começamos a entrar na fase do pertencimento com autores membros da comunidade escrevendo com responsabilidade sobre personagens diversos.


De alguma forma essas histórias abriram caminhos para que hoje outras obras possam ser celebradas e a partir delas podemos ter uma visão mais geral sobre o que foi, o que é e o que poderá se tornar a literatura LGBTQIAP+ no Brasil.


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