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Imogen, obviamente, está longe de ser hétero

Quem gostou de ler “Com amor, Simon” com certeza vai se apaixonar ainda mais por “Imogen, Obviamente”, mais uma história de autodescoberta de Becky Albertalli.

Aqui a protagonista dessa história é Imogen, uma jovem de 18 anos, de cabelos castanhos-claro e compridos, apaixonada por usar cardigã e especialista no jogo “onde está Wally?”. Imogen está no final do ensino médio e já garantiu uma vaga na mesma universidade que Lili, uma de suas duas melhores amigas que por ser um ano mais velha que ela, partiu para a universidade antes e anseia pela visita de Imogen há bastante tempo!


Em março, seis meses antes de se mudar e ser moradora oficial de uma universidade, Imogen finalmente toma coragem de ir visitar Lili. E mesmo tentando se convencer de que ainda não havia feito essa curta viagem por estar atarefada demais com seus deveres de casa, sua demora se deu principalmente por ela ser uma pessoa levemente insegura, que pensa até demais em tantas possibilidades que beira o inimaginável.


“Ainda não tirei o cinto de segurança, mas estou quase lá. Obviamente. Só esperando meu cérebro parar de imaginar que estou sendo entrevistada em um talk show na frente de uma platéia ao vivo vagamente hostil”

Estar na universidade que Lili estuda, e que futuramente também será sua casa, não significa apenas uma visita ao campus e a sua melhor amiga. Estar lá também significa que ela irá conhecer as novas amizades de Lili, ou seja, um grupinho LGBTQIAPN+ que acolheu sua amiga muito bem após ela se assumir pansexual e começar a desabrochar sua identidade pro mundo!


Ela sabe a importância dessas amizades para Lili, então quer mostrar ainda mais o quanto é uma super aliada da comunidade LGBTQIAPN+ e o quanto se orgulha disso.


Imogen tem consciência de que é obviamente hétero! Mas sempre participou das reuniões da Aliança do Orgulho, na escola, aprendendo sobre vivências da comunidade para ser cada vez mais uma melhor aliada. E ela se envolve ainda mais nesses assuntos pela proximidade que tem com sua irmã Edith, que é lésbica, e sua outra melhor amiga Gretchen, que é bissexual.


Mas nossa protagonista não vai precisar mostrar sua carteirinha de hétero aliada como imaginava, porque Lili inventou uma pequena mentirinha para suas novas amizades: ela disse que Imogen e ela NAMORARAM!


Não vendo nada de grave nessa mentira e querendo apoiar Lili em qualquer situação, custe o que custar, Imogen se mostra a grande melhor amiga que é escondendo sua carteirinha de hétero aliada e assumindo a carteirinha bissexual por um final de semana.


“Não que eu fosse me importar se uma menina sáfica me curtisse. Na verdade eu acharia superlisonjeador.”

E nesses três dias que se passam podemos presenciar Imogen viver sua nova identidade bissexual em momentos divertidos envolvendo jogos de perguntas, de “onde está Wally?”, além de pegadinhas marotas junto a Lili, Declan, Kayla, Mika, e principalmente junto a Tessa, a garota de cabelos curtos e moletom que tem um humor muito parecido com o dela. 


Imogen encontrou alguém que tem as mesmas sagacidades para piadinhas que ela, onde tudo se complementa. Mas, Imogen não ficou observando apenas o humor de Tessa.


“Sob a luz do sol, os olhos dela tem exatamente a cor de avelãs.”

É inegável o quanto Tessa é uma companhia que Imogen adora passar tempo junto, presencialmente e virtualmente. E entre inúmeras trocas de mensagens com Tessa, trocando emojis, compartilhando fotos de gatinhos, segredinhos sobre shows para ursos de pelúcia, selfies de covinhas e flertes que vão de sutis a escancarados, Imogen começa a se questionar se é normal ter sonhos bem lúcidos e teatrais com uma garota (alerta fanfiqueira). E para além disso, ela se questiona se está fazendo algo errado ao achar que talvez a mentirinha de Lili tenha um fundo de verdade. Afinal, será mesmo que ela é tão obviamente hétero assim?


“Uma única menina não pode mudar toda a minha sexualidade, certo?”

Quem avisa a Imogen?


As interações com Tessa levam Imogen a perceber que algo diferente está acontecendo a sua volta e principalmente dentro de si. Ou que, na verdade, esse algo sempre esteve ali, ela só não havia dado a devida atenção antes.


Em meio a vários sobes e desces das autodescobertas nessa narrativa devorável e divertida, com referências ao filme clássico “Nunca fui santa”, o livro queridinho das sáficas Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, e crushes em atrizes famosas, vemos essa jovem abrir espaço em sua vida para saber mais sobre quem é, e isso vale para vários pontos de si além de sua sexualidade.


Beck Albertalli trouxe nessa história de forma responsável, mesmo que desperte também bastante sentimentos raivosos em algumas cenas, abordagens que nos fazem questionar a forma como lidamos com as expectativas que criamos sobre outras pessoas, e principalmente, que não há um jeito certo de ser uma pessoa LGBTQIAPN+.


Essa história nos lembra que jeitos de se vestir, de usar o cabelo, de falar e se expressar para o mundo não definem se alguém é ou não LGBTQIAPN+, por mais que muitas coisas que façamos ou usamos possam ser símbolos de demonstrações que pertencemos a comunidade. E é natural buscarmos identificar esses detalhes, porque estamos em busca de segurança em ambientes que estivermos! E se identificamos nos sentimos melhor acolhides nos espaços. Mas não está escrito na testa de ninguém suas identidades!


Em muitos momentos as pessoas estão apenas expressando quem são e não tentando chamar atenção ou então tentando fingir ser algo que não são.


Essa narrativa mostra como cada pessoa tem o próprio tempo e história, além de salientar a importância de que nós devemos nos cercar de pessoas semelhantes a nós, e não apenas no quesito identidades, mas no sentido de nos compreender e nos acolher. No sentido de serem pessoas que genuinamente nos amam e que irão ficar felizes por nós ao ver as sementinhas que estavam em nossos corações florescer, assim como Imogen ficou feliz vendo Lili finalmente compreender quem era e assumir isso para o mundo!


Além disso, essa história fala sobre respeitar o tempo e o espaço das pessoas. E que nem sempre as pessoas por quem cultivamos um grande sentimento vai ser alguém tão legal assim em nossa vida.


E na parte do romance, aqui presenciamos uma trope tão queridinha por tantas pessoas, ou seja: estranhas para amigas para amantes. E nesse quesito nós nos afundamos em acompanhar todo um desenvolver de sentimentos de duas garotas que com o passar dos dias vão se conectando, e consequentemente nos conectamos a elas! Elas transbordam fofura e sorrisos gigantes de tão encantadoras que são enquanto mostram para nós a trajetória que vão construindo ao estarem se apaixonando!


Imogen, Obviamente” é uma história para além de autodescobertas e uma nova paixão. É uma reflexão divertida e intensa sobre amizades reais e alianças que criamos ao longo de nossas jornadas.


Resenha por Lice Oliveira


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