O homem de lata é pra quem gosta de histórias tristes

Uma história delicada, triste e que celebra a importância dos amores que não tiveram muito tempo


Há alguns dias, enquanto assistia a uma live, ouvi uma autora falar sobre os pedidos que sempre recebe para escrever a continuação de um determinado livro. Na história em questão, o casal principal fica junto no fim. Mas a autora falou, em certo tom de brincadeira, que os leitores que pedem pela continuação não poderiam reclamar caso o casal se separasse.


Comecei falando desse caso porque conheço a história e ela é fofa, leve e linda. E conhecendo a escrita da autora, duvido muito que um possível término, nessa continuação que não existe, estragaria isso. Seria apenas a vida seguindo seu curso. E alguns términos fazem parte da vida.


Entender a importância de narrativas plurais quando se fala em histórias LGBTQIAP+ é muito importante. Já me deparei com comentários de “quentinho no coração” em obras que não tem nada de feliz além de um casal ficando junto no final. Assim como já conheci muitas histórias onde nem mesmo um final trágico é capaz de apagar uma vida inteira de felicidade. Livros são assim…


A primeira vez que ouvi falar em O homem de lata, de Sarah Winman, foi ao ver uma pessoa chorar muito enquanto lia. Essa é uma história muito triste, de fato.


Ellis, o personagem principal, leva uma vida solitária. Ele trabalha na oficina de uma fábrica de automóveis e vive sozinho desde que a esposa, Annie, morreu. Em seus momentos de crise, Ellis chega a conversar com o que acredita ser a esposa.


A narrativa não é exatamente linear, pode parecer confusa em alguns momentos, mas essa história é muito simples. Ellis era o melhor amigo de Michael, eles se apaixonaram, mas as coisas se complicaram. Annie chegou, Ellis se apaixonou e se casou com ela. Os três tinham uma relação de amizade e, possivelmente, algo mais. Mas uma coisa é certa: eles se amavam.


Na história, Michael acaba se afastando de Ellis e Annie em certo momento da vida, e vamos descobrir o que aconteceu com ele nesse período. É um dos trechos mais emocionantes e tristes do livro.


Ellis é o típico personagem que já perdeu muito, mas ao mesmo tempo, revisitando as próprias lembranças, ele se reencontra com os bons momentos que fizeram parte de sua história. Isso deixa o livro menos triste? Não! Acredito que deixa ainda mais, afinal, os amores impossíveis, ou amores que duraram pouco tempo, podem dar aquela sensação de: e se tivesse sido diferente?


Enquanto conhecemos esse amor cheio de delicadeza, também nos deparamos com um pai violento, com as incertezas e com a razão pela qual Ellis hoje vive tão só.


Por muito tempo, o único lugar reservado para as nossas histórias LGBTQIAP+ era o dos finais trágicos, das vidas exageradamente tristes, do sofrimento sem muito propósito. Hoje, com o crescimento das publicações tanto independentes, quanto tradicionais, as narrativas leves e com finais felizes ganham cada vez mais espaço. E isso é maravilhoso. Mas, como alguém que ama os dramas, preciso lembrar da importância das histórias tristes, das nossas histórias tristes.


E não, ninguém precisa sofrer para aprender uma lição, a vida não precisa ser mais difícil para que faça sentido, mas, nas histórias tristes, muitas vezes, há uma identificação que chega a ser reconfortante. Ellis reencontra seus amores nas lembranças. Que possamos encontrar algum sentido em histórias como a dele.


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