Autoras lésbicas com orgulho

No Dia do Orgulho Lésbico, conversamos com escritoras sobre suas obras e o mercado

Autoras lésbicas com orgulho

Por Thaís Herculano


O mês de agosto é marcado por duas datas importantes para a comunidade lésbica. O Dia do Orgulho, 19, e o Dia Nacional da Visibilidade, 29. Uma das formas de conhecer e entender melhor a vivência lésbica é por meio das histórias escritas e protagonizadas por elas. Mas encontrar essas histórias pode ser um desafio quando não se sabe onde procurar.


Apesar de existirem há muito tempo, essas histórias enfrentaram diversos desafios para se firmarem. Ainda hoje, por diversas razões, é preciso recorrer a alternativas para produzir e ler mais obras com essa representatividade.


Apesar de ter sido a autora mais censurada durante a ditadura militar, Cassandra Rios se tornou a primeira brasileira a vender 1 milhão de exemplares, marca alcançada em 1970, superando outros grandes nomes da literatura. O primeiro livro de Rios foi rejeitado por várias editoras e ela o lançou por conta própria.


Uma nova chance ao mercado editorial



Hoje, ainda que algumas autoras lésbicas tenham conseguido “furar a bolha” e ser publicadas por grandes editoras, é no independente que a cena se torna mais favorável. A editora Vira Letra é voltada exclusivamente para a publicação dessas histórias e foi lá que Lis Selwyn voltou a acreditar que era possível continuar contando e publicando suas histórias.


“Eu conheci a Manuela Neves, editora da Vira Letra, em um período que eu estava bastante decepcionada com o mercado e pensando seriamente em desistir de publicar. Depois que eu enviei Valentina como original para avaliação, ela me apresentou a editora e eu senti que deveria tentar mais uma vez e foi a melhor escolha que eu poderia ter feito. As pessoas não falam muito sobre isso, mas ter uma editora que você confia e que acredita no seu trabalho faz toda a diferença.”


Atualmente, Lis conta com 9 obras publicadas pela Vira Letra, incluindo o romance Valentina, que é tão importante em sua carreira, e já ganhou spin-off e, agora, uma continuação.


“Foi a partir de Valentina que eu me conscientizei da importância da literatura lésbica não só para mim, mas para as pessoas que estavam lendo meu trabalho, por isso, tenho um carinho muito grande por este livro. Sempre senti que Valentina e Marisa, protagonistas do livro, tinham mais coisas para contar. Em 2021, veio a ideia de uma continuação e, desta vez, com um crossover de outro livro que é super importante para mim, Amor & Liberdade. Valentina, Marisa e Flora surgem, então, em Todo tempo do Mundo trazendo temas como dupla maternidade, relacionamentos lésbicos abusivos e poliamor.”


Nem tudo é romance



Quando fala de suas obras, a autora Brenda Bernsau acredita que não consegue se limitar a um único gênero literário, sem deixar de apreciar a vida cotidiana, afinal as histórias estão por todas as partes.


“Amo ficção especulativa, meu primeiro livro, Sophia, Alexia e o mundo além daqui é uma fantasia. Minhas obras de conto geralmente misturam ficção literária, com elementos do insólito. Meu conto para o Vozes Trans, por exemplo, é um realismo mágico. Atualmente, o gênero que mais tem me fascinado é o terror, e tenho trabalhado nele em alguns contos. Gosto de como os elementos fantásticos podem ser utilizados como metáforas para os mais diversos assuntos que enfrentamos; e os tempos atuais nos remetem muito à abordagem do horror.”


A autora está trabalhando na revisão de um romance que pretende terminar até o ano que vem. “É uma história sáfica com elementos de road novel e romance de formação, que fala sobre uma tatuadora e uma modelo. Estou bastante empolgada com o projeto, vamos ver no que dá”, revelou.


Além de autora, Brenda tem um canal no Youtube onde dá dicas de escrita criativa. Para ela, a literatura independente enxerga personagens e autoras lésbicas com mais naturalidade. Enquanto isso, o mercado tradicional tem objetivos diferentes e limitações para aceitar obras de nicho.


“É importante que as apostas do mercado tradicional em obras lésbicas e sáficas aumentem, claro, até por uma questão de visibilidade, mas sem o mercado independente, sofreríamos de uma grande escassez. Sem falar que o mercado independente é responsável por revelar autoras, que acabam ganhando oportunidade no mercado tradicional.”


Mercado, escrita e criação de conteúdo




Quando se fala em mercado independente é preciso levar em consideração que nem sempre as obras serão encontradas em todos os lugares. Para o mercado tradicional, o acesso às grandes livrarias, por exemplo, fica mais fácil, assim como a disponibilização de livros físicos para grandes redes que vendem online. Mas, ainda que as grandes editoras estejam um pouco mais receptivas, é no independente que as coisas já estão mais adiantadas quando o assunto é literatura lésbica.


Mariana Mortani é jornalista, escritora e roteirista. Para ela, o mercado independente tem uma importância não apenas na abertura de portas para autoras, mas também para que leitores consigam ter acesso às histórias para se verem ali.


“Passei a maior parte da minha vida sem me sentir representada e, quando me vi pela primeira vez em uma história, não quis voltar atrás. Hoje em dia as editoras independentes são as que mais acreditam nesse propósito de diversidade e ajudam a expandir o acesso a essas histórias. Não há dúvidas de que o acesso a livrarias e diferentes plataformas faz toda a diferença para as vendas, mas essa galera tem feito um trabalho incrível com muito pouco e devemos evidenciar quem está realmente apoiando nossas causas.”


Quando escreveu Amélia Sem Filtro, Mariana, além do romance entre duas meninas, também trabalhou a relação familiar das personagens. Para ela, o objetivo era que a história não fosse apenas sobre a descoberta da sexualidade ou sobre se assumir para as pessoas.


Esses processos possuem muitas camadas, então a ideia era explorar, principalmente, como aceitar a si mesmo pode ser uma etapa mais árdua do que o momento de sair do armário. Sei como a família, infelizmente, pode ser um peso no meio desse processo, então quis evidenciar, mesmo que de forma objetiva, como gerações diferentes lidam com sexualidade e como a comunicação sincera é importante para que expectativas estejam alinhadas. Sofremos muito por conta de palavras não ditas e por perguntas não feitas.”


Mariana também é criadora de conteúdo literário e mediadora de um clube do livro focado em protagonismo sáfico. Para ela, essa mudança no mercado é lenta e ainda é preciso caminhar mais. “Eu ainda sonho com o dia em que verei personagens lésbicas desfeminilizadas, negras, indígenas, PCDs etc tomando conta de todas as livrarias”, ressaltou.


Outras maneiras de colocar histórias no mundo



Existem diversas formas de publicar uma história que não necessariamente envolvam a impressão de um livro. A publicação de e-books independentes na Amazon, por exemplo, é uma realidade para muitas autoras. Também existem opções como Wattpad, responsável por muitas revelações da literatura como Elayne Baeta. E há quem faça isso por meio das redes sociais.


Carol Sarleto é uma escritora e ilustradora que escreve desde que foi alfabetizada. Ela publica prosa poética em suas redes sociais, enquanto se prepara para lançar seu primeiro livro. Essa foi a forma que Carol encontrou para se conectar com as pessoas.


“Nas redes sociais não apenas assisto às reações dos meus leitores, eu também interajo e me conecto com eles. Ser escritora independente e iniciante não é fácil e nos dias mais difíceis são meus leitores que me encorajam a continuar. Às vezes recebo mensagens do tipo ‘nossa que bom que hoje é dia de textinho novo, estou precisando’, ou ‘qual será o tema do texto de hoje? estou ansiosa!’. Quando estou sem inspiração ou com problemas para escrever comunico a eles e recebo muitas mensagens encorajadoras em troca.”


A autora lembra ainda que seus textos têm como público-alvo mulheres lésbicas e bissexuais, mas eles já chegaram além. “Para minha sorte e surpresa, confesso, tenho sido tão bem acolhida por toda comunidade LGBT e até pessoas de fora da comunidade”.


Carol afirma que antes era difícil se considerar escritora sem ter um livro publicado. Mas enquanto se prepara para o futuro lançamento, ela reflete sobre uma mudança nesse pensamento. “Antes era um fardo para mim me intitular escritora sem ser publicada ainda. Hoje já me desapeguei dessa cobrança porque já tenho uma rotina de trabalho de escritora e isso ninguém tira de mim. Meu primeiro livro deve sair em 2023 muito provavelmente de forma independente, é só o que posso dizer por enquanto”, finalizou.