O primeiro beijo de Romeu contra a censura

Livro de Felipe Cabral fala de temas importantes para um público jovem


Ao ver a ilustração do beijo entre Wiccano e Hulking na história em quadrinhos Vingadores: A Cruzada das Crianças na Bienal do Rio de Janeiro de 2019 o, até então prefeito do Rio, Marcelo Crivella, movido por puro preconceito decidiu censurar a história. 


Esse ato descabido gerou diversas reações, entre elas algumas conservadoras que apoiavam o movimento, porém a maior reação veio de uma comunidade que resolveu se unir naquele instante para protestar a favor da diversidade e ir contra o conservadorismo que tentava nos calar de uma das formas mais cruéis naquele momento e toda essa movimentação deu origem ao primeiro romance de Felipe Cabral: O Primeiro Beijo de Romeu, publicado pela Galera Record na Bienal seguinte, em 2021.


“Quem tinha roteirizado aquela distopia de mau gosto em que eu me encontrava?!”

Quando a censura aconteceu e nós lutamos com unhas e dentes para derrubar essa atitude eu acabei me dando conta de como a nossa união como comunidade poderia vencer qualquer barreira e a primeira sensação que me dominou assim que aconteceram todos os protestos foi esperança.


Esperança de que nós, que, sem mentir, não somos tão unidos como deveríamos, poderíamos seguir os passos de quem veio antes e realmente fazer a diferença que precisamos para continuarmos resistindo e sendo quem realmente somos.


O sentimento que tive ao ler O Primeiro Beijo de Romeu foi o mesmo.


Romeu é um jovem que está recém descobrindo seu primeiro amor e, quando está prestes a dar seu primeiro beijo com aquele que já vinha sendo seu crush há um tempo, é interrompido por um ataque homofóbico na biblioteca da sua escola. A história parte desse instante, quando adolescentes que só possuem como espelho uma criação preconceituosa retiram desse garoto um momento que deveria ser lindo (e que na maioria das vezes é, para pessoas cis hétero).


É doloroso ter esses momentos arrancados de você por esse tipo de pessoa, mas sabemos que acontece de uma maneira frequente e, quando se propõe a falar sobre isso, Felipe Cabral joga uma luz de verdadeira esperança no jovem que vai pegar seu romance para ler.


“A minha vontade era pedir para quem escrevia o roteiro da minha vida me dar uma trégua. Tipo, me deixar ficar calminho na minha um pouco. Não precisa ter uma reviravolta a cada esquina, sabe?”

O Primeiro Beijo de Romeu fala muito de LGBTfobia e censura, sim, mas o que faz com que ele transmita esse quentinho que a gente precisa dentro de nós é como ele, em momento nenhum, foge de ser um clichê com o qual nunca fomos acostumados.


Claro, cada momento em que Romeu sofre algum tipo de preconceito ou que seu pai sofre algum tipo diferente de censura dói na alma e é horrível ler isso e pensar que já estamos acostumados com isso, mas Felipe maneja para que a história transmita um ar de resistência e esperança baseados na força que temos como pessoas.


Romeu é um protagonista em confusão no meio do caos e é angustiante ver como ele está sendo constantemente forçado a lidar com coisas que ele não está com a mínima vontade de lidar, mas precisa porque o mundo joga nas nossas costas essa pressão para simplesmente sermos quem somos. Enquanto isso, temos a visão de Valentim, um dos pais de Romeu, que quer muito estar perto do filho nesse momento, mas se encontra dividido já que o prefeito insiste em censurar seu lançamento e é essa sobreposição de coisas que dá ao livro uma sensação de urgência sufocante que não passa até mesmo nos momentos mais mornos em que se dispõe a explicar muito coisas que deveriam ser mostradas e que se não poderiam ser mostradas então não deveriam estar ali.


O Primeiro Beijo de Romeu é um livro doloroso, mas é importante que possamos ler essa dor em um livro voltado para o público jovem porque quando ele está disposto da maneira como deve estar em um clichê ele transmite mais sentimentos bons que ruins. 


Eu amei me apaixonar com o Romeu e pelo Romeu. Amei me divertir com o humor afiado da história toda, principalmente o de Julinha e amei entender mais da história da comunidade LGBTQIAP+, mesmo que em alguns momentos essas interferências não tenham parecido bem inseridas.


O primeiro romance de Felipe Cabral é um sopro de esperança que me fez sentir mais força para seguir lutando nesse mundo que insiste em nos colocar para baixo. É uma história que merecia ser contada e que bom que foi feita dessa maneira. É um ato de resistência que é leve quando precisa e profundo quando há necessidade disso.


Romeu e Aquiles são luz em períodos de trevas e Felipe Cabral transmite essa exata sensação, tornando as páginas do seu livro cada vez mais poderosas e fazendo com que a história cresça de maneira incrível e te deixe vidrado sentindo a confusão de sentimentos que a gente ama sentir quando estamos lendo uma história que nos deixa intrigados o suficiente para que não consigamos largar de jeito nenhum.


“— Mas não se enganem. Um governo que age dessa forma, movido por uma pulsão de morte, vai ser destruído por essa mesma pulsão de morte!”
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