Um amor que merecia uma segunda chance

Atualizado: há 3 dias

O último Natal de Violeta, de Maria Freitas e Koda G, é uma história de Natal com viagem no tempo e romance


“Há uma lenda antiga sobre uma viajante que se perdeu no tempo. É a história que aterroriza todos os agentes de primeira viagem para que eles não cometam o pior erro que podem cometer: voltar para longe demais.”

Uma história de Natal pode ser inesquecível por muitos motivos. As que sempre amei foram as emocionantes, que envolviam crianças fofinhas e, mais recentemente, aquelas onde casais apaixonados descobrem o amor enquanto procuram pela árvore perfeita ou fazem biscoitos de gengibre para confeitar. Com O último Natal de Violeta, a régua que eu usava para medir o nível de uma história natalina emocionante chegou a um nível que ficou difícil até para o Milagre na rua 34.


Comparações (absurdamente) injustas à parte, O último Natal de Violeta, de Maria Freitas e Koda G, reúne elementos que, num primeiro momento, podem soar estranhos, mas se encaixam muito bem na narrativa. Natal, viagem no tempo, romance, identidade, autodescoberta, preconceito e arrependimentos são apenas alguns desses elementos. É uma escrita muito envolvente, então fica difícil largar antes de chegar ao fim.


O último Natal de Violeta conta a história de uma mulher idosa que vive arrependida por ter deixado um grande amor no passado. Parecia não haver mais chances para ela, mas uma misteriosa viajante do tempo aparece em seu quintal. A viajante é Jen, que está em uma fuga desesperada e tem falhando na missão de não ser encontrada. Por isso, ela decidiu ir para longe demais e acabou caindo no quintal de Violeta.


A história é curta e, mesmo com tantos elementos, nada fica fora do lugar ou é jogado sem um contexto. Alguns capítulos narram a interação entre Violeta e Jen no ano de 2074, após a queda da viajante no quintal da mulher. Outros, narram natais passados e mostram os momentos em que Violeta se relaciona com aquela que foi seu grande amor, Liz.


Violeta e Liz foram amigas na infância, mas acabaram se afastando depois que Liz mudou de escola. Liz se assumiu como uma pessoa não binária e, no Natal de 2016, as duas estão se reaproximando depois de vários anos. Elas conversam pela internet e estão dispostas a retomar a amizade. Nesse momento já fica claro que Violeta sente algo mais pela amiga.


“Fiquei ouvindo os áudios algumas vezes, sorrindo igual boda. A risada dela ecoava nos meus fones de ouvido e olhar para aquelas fotos enquanto a ouvia me trouxe algum tipo de nostalgia muito estranha, como se estivesse sentindo falta de algo que ainda nem aconteceu.”

No decorrer da história, vamos entender como esse amor surgiu e também como ele terminou, já que Liz é o motivo pelo qual Violeta carrega tantos arrependimentos. Os autores mostram o lado mais ardente desse amor, mas também escancaram toda a dor que ficou quando ele chegou ao fim.


Jen, a viajante do tempo, é uma pessoa não binária, assim como Liz. Isso é só uma das coisas que faz com que ela e Violeta tenham uma conexão. A amizade é trabalhada nas sutilezas do dia a dia, no cuidado que Violeta tem com Jen e também na forma como a viajante se torna uma companhia depois de muito tempo de solidão.


Mas Jen também tem suas cicatrizes, e são muitas. Sua fuga está relacionada à facção que está em sua vida desde muito cedo. Na época em que ela nasceu, no futuro, o mundo está caótico e, por isso, sua jornada envolve abandono, planos frustrados e também a perda de seus amores.


Na relação entre as duas personagens, podemos conhecer um pouco mais da história de cada uma e entender as dores que elas compartilham. Jen está no passado, longe de tudo e de todos que já conheceu. Ela tem poucos recursos para mudar o rumo de sua vida, mas na amizade com Violeta encontra conforto e pequenas experiências que nunca teve a oportunidade de viver.


"Nunca tive uma casa no interior, nem laranjas e nem uma mini plantação de cebolinhas. Mas dona Violeta tem.”

Todas as relações abordadas no livro têm profundidade. São camadas de amores, famílias, festas de Natal tipicamente brasileiras e muitas memórias. É uma leitura que, mesmo com toda a intensidade das emoções, passa rápido demais. O último Natal de Violeta atinge o leitor em lugares muito específicos. É uma história LGBTQIAP+ de Natal, mas está longe de ser uma leitura apenas para o mês de dezembro.


No livro, graças à tecnologia vinda do futuro, o destino ganha uma mãozinha, mas isso não resolve muita coisa quando alguém pode se perder em um caminho sem volta. Violeta, Jen, Liz e todos os elementos inseridos nessa história, mudaram para sempre a forma como eu via as histórias de Natal. Que o mundo seja um pouco mais gentil para que o destino não precise sofrer intervenções de viajantes do tempo em fuga.


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