Um abraço em 200 páginas

Atualizado: 20 de mai.

Quinze Dias, do Vitor Martins, é um livro pra todo mundo que já foi (ou ainda é) adolescente


“Eu sou gordo. Eu não sou ‘gordinho’ ou ‘cheinho’ ou ‘fofinho’. Eu sou pesado, ocupo espaço e as pessoas me olham torto na rua.”

Preciso confessar que quando peguei o livro Quinze Dias do Vitor Martins para ler, pensei que encontraria apenas uma história fofa sobre dois garotos se apaixonando, mas não foi só isso. Essa é sim uma história com protagonismo LGBTQIAP+, mas que traz outra representatividade que eu tinha visto poucas vezes: o protagonismo gordo.


Crescer como uma pessoa gorda, vendo muita gente controlar o tempo todo o que eu comia, foi uma experiência terrível. Ver corpos gordos representados como piada na TV não ajudou muito. Evitei piscinas o quanto pude, fui à praia apenas uma vez em 30 anos, demorei muito para entender que meu corpo também era desejado. E aí, abrindo um livro sobre dois garotos se apaixonando, encontrei na dedicatória o abraço que nunca recebi enquanto crescia.


“Pra todo mundo que já entrou na piscina de camiseta.”

O livro conta a história de Felipe, um adolescente que só queria aproveitar as férias de julho para maratonar séries, colocar a leitura em dia e assistir tutoriais na internet. Mas esse momento acaba ficando muito tenso porque Caio, o vizinho e crush de Felipe, vai passar quinze dias hospedado em sua casa.


As férias podem se tornar um pesadelo, afinal, além de todas as questões que envolvem os sentimentos que tem por Caio, Felipe vai precisar lidar também com as inseguranças em relação a si mesmo. Tudo isso com o vizinho dentro da mesma casa que ele, dividindo o mesmo quarto.


Quinze Dias é uma obra que aborda a homossexualidade do protagonista de um ponto de vista mais otimista. Felipe vive com a mãe e eles estão muito bem com essa questão. Os problemas que ele enfrenta estão mais relacionados com a gordofobia e em como ela o afeta no dia a dia. Todo esse cenário é agravado pela forma como os colegas de escola lidam com ele.


“Desde que eu quebrei uma cadeira no começo do ano na aula de geografia, as pessoas cantam Wrecking ball baixinho quando eu passo no corredor. Duas semanas depois, outro aluno da minha turma também quebrou uma cadeira. Ninguém canta Miley Cyrus pra ele. Adivinha só? Ele é magro.”

Uma cena como essas em um filme da Sessão da Tarde certamente teria rendido várias risadas do público. Por muito tempo, o único lugar reservado para pessoas gordas na ficção era o da comédia de péssimo gosto, onde a humilhação parecia ser a única possibilidade. A pessoa gorda não precisava nem de uma fala, era só cair. Toda a graça ficaria por conta de algum outro jovem, magro, com mais tempo de tela.


Em Quinze Dias isso não acontece. Nada ali é abordado como se o corpo de Felipe fosse uma piada. Para lidar com as ofensas dos colegas, ele ignora. Mas isso não quer dizer que ele não se importe ou que isso não o afete.


“Ninguém se acostuma com lembretes diários de que você é uma bola de demolição. Só me acostumei a fingir que não é comigo.”

Com a chegada de Caio e a proximidade entre eles, Felipe vai acabar tendo que olhar para si mesmo e para todas essas questões que o incomodam. A presença de outra pessoa dentro de casa, faz com que ele se sinta mais exposto e mesmo com todo o sentimento que tem pelo vizinho, em um primeiro momento, ele chega a ser bem rude e resistente.


Aos poucos, a interação entre eles melhora e as atividades do dia a dia fazem com que eles conversem mais. Cada capítulo conta um dia das férias, por isso é possível ver com detalhes a aproximação e como a relação entre os dois é construída.


“Ficamos até tarde contando histórias e trocando fatos banais. Nós vamos revezando e eu nunca sinto como se estivesse falando demais ou de menos.”

Quinze Dias é uma história adolescente onde ninguém precisa passar por uma transformação física para merecer ser visto e desejado. É um marco na literatura jovem nacional e, felizmente, já começou a ganhar o mundo por meio de traduções para outros países, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha.


Vitor Martins escreveu o livro que, muito provavelmente, nunca sairá da lista de favoritos dessa que vos fala. Mesmo com vivências muito diferentes, é difícil não me ver nos dilemas de Felipe, no suor que incomoda, no receio em ser mais uma pessoa gorda falando de comida, no pânico na hora de tirar uma foto e ter para sempre um registro de quem somos.


Em pouco mais de 200 páginas, esse livro abraça, acolhe e cria um afeto que ultrapassa o amor de Felipe e Caio e atinge quem está lendo. É uma daquelas histórias em que os leitores encontram conforto. É para o adolescente de hoje e para aquele que fomos um dia.

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