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No ano 10442 da humanidade, Grande Ilha do Cerrado, uma estudante de arqueologia digital da Universidade de Brasília encontra uma obra de arte viva em meio a destroços eletrônicos da Ilha de São Paulo. Intitulada de A Árvore de Orum a instalação consiste de um cubo que contém uma biosfera diminuta, separada ao meio por um peculiar espelho perfeito, à exceção de que de um lado reflete um bonsai de pau-brasil; do outro, uma noz-de-cola. Sob efeito da luz solar, a planta começa a emitir dados por meio de uma tecnologia antiga de greentooth, trazendo “sentimentos-multimídias” organizados em três pastas, "A Identidade Damatá", "A Liberdade Ofá" e "O Salto Logunedé"
Imersa na vivência dos registros, a arqueóloga descobre a saga de uma família composta majoritariamente de mulheres afro-brasileiras durante os dois primeiros séculos do início do milênio. Em meio às agitações sociais que originaram os Tempos Obscuros, ou que deles surgiram, ou ainda, que neles encontraram uma oportunidade de potência, as histórias dessas vidas documentadas se entrelaçam numa dupla, quase sempre espelhada, luta por sobreviver e poder (se) escrever. A importância do achado a perturba, pois não só é o único registro digital da época como também da vida de duas personagens históricas envolvidas no Grande Apagão: a misteriosa ráquer M4, quem assumiu ter provocado o ato terrorista através de um manifesto pichado em muros no Centro Velho de São Paulo e a grande cientista brasileira Doutora Maria Amélia Chagas de Souza, quem fundou o Hexágono, de onde se suspeita que surgiram as inteligências artificiais responsáveis pela dualidade – tema tabu desprezado pelos historiadores mais conservadores como a metafísica é pelos materialistas.
Às vésperas de se mudar para São Paulo, a quase anônima Maria Amélia vive no Rio de Janeiro e ainda não decidiu se vai de balsa ou de trem. Num dos primeiros absurdos da trama, viaja à ilha mais populosa do país pelos dois caminhos. Entre aventuras que descortinam essa e outras particularidades do mundo em que vive, desenvolve o projeto de doutorado que serviria de base para a dualidade e conhece algumas das pessoas com as quais fundará o Centro de Estudos Étnicos e Genéticos da USP, popularmente conhecido como Hexágono.
Um século depois, tendo como cenário principal o arquipélago paulista – que se ergue vulcânico da dorsal mesoatlântica, a mais de 3000 quilômetros a oeste da Baía de Guanabara – a cientista experimenta o final da vida, aos 120 anos, ainda trabalhando no Hexágono e a narrativa se expande sob o ponto de vista de quatro novas personagens que vivem numa urbe de dataísmo avançado, marcando os últimos avanços tecnológicos e o clima social das décadas anteriores ao Grande Apagão. Envolvidos em esquemas de espionagem, corrupção e pressões políticas para aprovação de uma polêmica lei sobre dados genéticos, a vida de José, Pedro, Juliana e Henrique são temperadas com acontecimentos bizarros que ecoam do passado. Enquanto num primeiro momento reprimem o que percebem de diferente no mundo como meras alucinações, tentam seguir os mesmos, numa realidade que a cada dia conhecem menos. Aos poucos, seus caminhos vão se cruzando até descobrirem que fazem parte de um coletivo traçado há muito tempo.

A Identidade Damatá

  • Felipe Andueza
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DEPOIS DA MEIA-NOITE

Por Alan Silva

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